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Like A Man

25 de Março, 2020

Da minha varanda sei do bairro

André de Atayde

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Há quem diga que a televisão é a janela para o mundo. Aposto que a primeira pessoa que disse isso não tinha varanda em casa. Em tempo de quarentena, a varanda é a nova esplanada onde se bebem cervejas com os amigos. E é, também, um motivo de arrependimento para todos aqueles que as quiseram transformar em marquises...

 

1

Todos os dias o senhor engenheiro chega a casa no seu carro híbrido e deixa um rasto de ópera pelo bairro. Nunca abre as persianas ou as janelas. Nunca abria, porque desde que a quarentena começou, o apartamento no 3º andar do prédio na diagonal-direita à minha varanda ganhou uma nova vida. Imagine-se que o senhor engenheiro até vem à varanda regar as parcas plantas que habitam os canteiros.

 

2

De manhã, enquanto bebo café, o vizinho do primeiro andar do prédio da frente, joga sempre a mão ao alto para atirar um bom dia de voz grossa. Já a mulher aproveita para endireitar as sobrancelhas à varanda, pinça a pinça, de espelho redondo na mão. Mas só depois do almoço, quando o sol bate na varanda.

 

3

Por baixo há um cabeleireiro, fechado por estas alturas, mas que desconfio servir também de casa para a proprietária, embora acredite ter poucas condições para alojamento. Mas é a Lisboa a que nos vamos habituando, infelizmente… A dona tem nome de moeda italiana antes do Euro e uma cadela chata, a Mel, que ladra a tudo e a todos. Mas não morde. Ou nunca mordeu. Sempre me perguntei do que é que um cabeleireiro de bairro consegue (sobre)viver. Ainda não tive resposta sólida a isso.

 

4

No rés do chão do meu prédio há uma padaria que continua a aberta por estes dias - tem uns croissants bons. A rapariga que lá trabalha tentou mudar o horário de funcionamento mas o patrão não deixou. Continua a abrir de manhã, a fechar pelas 13h e a reabrir das 17h às 19h. Quatro horas de intervalo passadas em transportes públicos entre casa e trabalho… não havia necessidade.

 

5

No prédio à esquerda há música às dez da noite, todos os dias. Haja, ou não, gente à janela. Começou com o bater das palmas como agradecimento aos profissionais de saúde e tem perdurado no tempo. Daquela casa já saiu Bruce Springsteen, Queen, Zeca Afonso, Sérgio Godinho, e outros. A adesão dos vizinhos já não é a melhor, mas é um hábito interessante.

 

6

O meu vizinho de cima toca concertina todos os dias. Antigamente às 19h, agora às 21h. O som mal se ouve, mas o bater do pé a marcar o ritmo é uma chatice. Mas são tempos atípicos, e está tudo bem.

 

7

Nunca mais vi o vizinho que passeia os dois cães como se estivesse numa barragem a fazer wakeboard. Espero-o bem.

 

8

Há obras na minha rua. Todos os dias. Começam uma coisa num lado e depois passam para outro, sem acabarem o que começaram. Nunca percebi obras municipais e estes dias na varanda também não têm ajudado a solidificar esse conhecimento.

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