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Like A Man

08 de Junho, 2021

Bagageiro emocional, precisa-se.

João NC

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Estão de serviço nos melhores hotéis. Após o check in, e de caminho para o quarto, são responsáveis pelo transporte da bagagem dos hóspedes, com o cuidado que se impõe. Serviço de utilidade discutível? Talvez. Dependerá do volume e quantidade da bagagem que nos acompanha. Em função desta variável, há até alguns que se fazem acompanhar de um carrinho para ajudar ao transporte.

Defendo, com a propriedade de alguns anos a frequentar os lobbies de hotel em que se transformaram as relações, que devemos considerar esta mesma função para a bagagem emocional que nos acompanha e tantas vezes nos impede de entrar no ‘elevador’ que nos pode levar ao andar do nosso contentamento.

É inevitável. Se está a ler isto, tem mais de trinta anos e não está numa relação longa, não preciso de lhe explicar o conceito de ‘bagagem emocional’. Ainda que o termo possa ser desconhecido – o que me parece francamente impossível dada a popularidade do mesmo – já lhe terá sentido o peso. Directa ou indirectamente, todos já carregámos esta bagagem. Nossa ou de terceiros. No fundo, este é o tipo de bagagem que tentamos arrumar o melhor possível, nos compartimentos que nos estão acessíveis, pensando - erradamente - que ali não vão incomodar.

É a traição do grande amor da nossa vida, a falta de reciprocidade no compromisso, as imiscuidades da sogra, as marcas deixadas pelos bad boys e girls que tanto dizemos odiar, mas que nos atraem como traças cegas pelo brilho de uma lâmpada na escuridão de uma noite de verão. É, no fundo, a bagagem que tantas vezes faz adornar o barco do amor em que procuramos navegar pela vida.

Este peso, que carregamos sempre para as relações seguintes, precisa de um bagageiro emocional. Alguém que nos ajude não apenas a transportar toda esta carga, mas que sobretudo, e esta é a diferença para os senhores dos hotéis, nos vá aliviando da bagagem em excesso, numa estranha fusão de cuidado cinco-estrelas e excessivo rigor de companhia low cost, onde cada quilo conta. O que neste caso é bastante apropriado, já que vamos mesmo precisar de espaço para as pernas que só o amor nos pode dar.

No edifício das relações, onde o lobby é uma espécie de primeiro encontro onde fazemos o check in, vejamos o elevador como o nosso transporte para o futuro. A ascensão que pretendemos fazer face ao ponto em que nos encontramos. Aí chegados, e perante a decisão do andar para onde nos queremos dirigir, o nosso fiel e atento bagageiro tomaria a decisão de ‘esquecer’ a bagagem que não nos faz falta para essa viagem. E nós, distraídos com a perspectiva de um novo amor, nem notaríamos. Um género de mecanismo inconsciente de autopreservação, que nos levaria a fazer a viagem sem precisar de tudo aquilo que conhecemos tão bem e cuja familiaridade tem sido uma espécie de fantasma do Natal passado, de um Mr. Scrooge avarento de sentir aquilo que sempre se habitou a experimentar e que de alguma forma o conforta, remetendo para os mesmos erros.

Feita, enfim, a ascensão ao novo patamar, ser-nos-ia então entregue a pouca bagagem necessária para AQUELE momento com AQUELA pessoa. Cortesia do nosso bagageiro emocional, que então se retiraria airosa e discretamente, não sem antes receber uma generosa gratificação pelos serviços prestados. Ao casal e à humanidade, já que se há coisa de que este mundo precisa é de gente desempoeirada, crente de que o amor pode ser uma coisa bonita.   

 

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